"Não acredito muito na disciplina"


Mas por que é que os pais só querem que os filhos durmam e comam?
Há uma pressão social muito grande. Exige-se à mãe que vá trabalhar, mas como pode a mãe trabalhar se o filho precisar muito dela? Então queremos um bebé que não precise da mãe, um bebé que possamos deixar no berço e só ir lá buscá-lo quando nos der jeito. Isto é irreal, os bebés não são assim.
Os bebés precisam de atenção, precisam de contacto, precisam de pessoas que lhes dispensem 24 horas por dia.

O seu livro chama-se “Bésame mucho, como criar os filhos com amor”. Brazelton também defende que o primeiro instrumento para criar os filhos é o amor, mas seguido da disciplina. Na sua opinião, onde entra a disciplina?
Não acredito muito na disciplina. O problema da disciplina é que há muitas interpretações para o conceito. Com algumas dessas interpretações eu estaria de acordo, embora não lhe chamasse disciplina.
Mas com outras interpretações não estou nada de acordo. Isto é um problema, porque quando se fala em disciplina cada pessoa entende uma coisa diferente. Por exemplo, se eu estivesse aqui com o meu filho, deixaria que ele pintasse o sofá com um marcador? Claro que não. Mas deixaria que corresse por aqui? Claro que sim. Não estaria sempre a dizer «está quieto». Há coisas que uma criança pode fazer e outras que não pode. Mas não estou de acordo com as pessoas que dizem que temos de proibir coisas para as crianças aprenderem. Em Espanha há um livro que se chama «O não que ajuda a crescer». Quando eu digo a uma criança para não estragar uma coisa, estou a ensinar-lhe a não estragar essa coisa. Mas algumas pessoas acreditam que ao dizer-se «não» está a ensinar-se a criança a controlar-se, a obedecer, a ter disciplina. Dizem que é importante pôr-lhe regras, pôr-lhe limites. Porquê? Elas não precisam de limites porque já os têm.

Como assim?
Há vários livros que ensinam os pais a pôr limites aos seus filhos. Mas alguém acredita que uma mãe ou um pai deixe, por exemplo, o filho beber lixívia porque não sabe pôr-lhe limites? É preciso comprar um livro para saber que não se pode deixar uma criança beber lixívia? Todos os pais sabem. Então o que ensinam esses livros? Ensinam a proibir coisas às crianças porque sim. Ou seja, a criança quer fazer uma coisa que não é má, que não prejudica ninguém, que não custa dinheiro, que não faz mal ao ambiente, uma coisa que eu tenho tempo para lhe dar, que eu lhe posso dar. Mas eu vou dizer-lhe «não» porque há um livro que diz que é preciso pôr limites às crianças dizendo «não». Se se pode dizer que sim, diga-se que sim.

Deve dizer-se que sim a uma criança sempre que possível?
Deve dizer-se sim quando se acha que se pode dizer que sim e não quando se acha que se deve dizer não. Como se faz com todas as outras pessoas e não é preciso comprar um livro que ensine isso. Ninguém acredita que seja bom para um adulto ter limites. Temos limites, obviamente. Uns gostavam de ganhar mais, outros gostavam de passar férias nas ilhas Seicheles, ou ter um carro maior e ninguém diz «ainda bem que tenho limites, são bons para mim porque cresço como pessoa». Pelo contrário, tentamos superar os limites. Então por que acreditamos que para as crianças são bons? Se uma criança tem nota três numa disciplina e justifica dizendo que é o seu limite, os pais dizem que não pode ser, dizem-lhe que estude mais para ter um cinco. Nenhum pai quer que o filho fracasse. Então para que se empenham em dizer que não, em pôr-lhes limites, em dar-lhes disciplina? Se, afinal, os pais querem que ele consiga sempre ter o que deseja? Se a criança quiser brincar com este papel, se quiser estar ali em vez de estar aqui, por que não deixá-la? Se queremos que, pela vida fora, os nossos filhos consigam fazer tudo o que querem temos de educá-los para levar a sua avante, para fazer o que lhes apetece, desde que isso não prejudique ninguém.

Às vezes, é difícil convencê-los de que não podem fazer alguma coisa, mesmo quando isso prejudica alguém.
Por exemplo, se a criança quer atirar uma coisa pela janela. Não vou deixar, claro. Mesmo que proteste, que chore. É igual. Não vou deixar jamais. Mas não vou dizer-lhe «não e não», a gritar, e deixá-la a chorar sozinha. Digo-lhe: «Não podemos mandar coisas pela janela, mas podemos brincar com este jogo». Mas, imaginemos que o meu filho me pede um gelado e eu não quero dar-lhe um gelado porque tem açúcar ou porque faz mal aos dentes. Se o meu filho desata a chorar, atira-se para o chão, bate com a cabeça na parede. Bem, então dou-lhe o gelado. E não é mau mudar de opinião. Digo-lhe: «Não sabia que te apetecia tanto um gelado». E nenhum pai perde autoridade por isso. Franco e Salazar nunca mudaram de opinião. Agora os governos mudam de opinião. Dizem uma coisa, há manifestações na rua, mudam de opinião. E as pessoas preferem este governo. Antes, tinham medo, mas não tinham respeito.
Os pais ensinam os filhos com os seus exemplos. Se dizem que não, a gritar, estão a ensinar-lhes a ser inflexíveis. Se dizem, com maus modos «se queres a porcaria do gelado toma lá o gelado», estão a ensinar-lhes a ser vingativos. Se dizem «se queres tanto um gelado, eu dou-to, mas não podes abusar, é um e nada mais», estão a ensinar-lhes a ser razoáveis, a negociar.

Mesmo assim, há crianças que acabam por dominar os pais. Chamam-lhes crianças tiranas ou crianças ditadoras.
Os pais é que são tiranos. Uma criança levanta-se de manhã, à hora que os pais a acordam, vai ao colégio que os pais escolheram, veste a roupa que os pais compraram. E por aí adiante. E, na maioria das vezes, a criança fazem tudo isto sem protestar. Todos os dias recebem ordens sobre tudo o que devem fazer. A criança tem de obedecer tantas vezes, que chega um momento em que começa a ficar nervosa. Há um momento em que explode por algo que aos pais parece uma parvoíce, como querer uma pastilha elástica.

Mas há crianças que pedem mais do que uma pastilha, que estão sempre a exigir coisas aos pais.
As crianças obedecem-nos continuamente. E o que mais gostam no mundo é de ver os seus pais contentes. E tentam por todos os meios que os seus pais estejam contentes. Só que às vezes não sabem. E às vezes não podem. Por exemplo, uma criança de dois anos que acorda a meio da noite e chora. Uma vez, duas vezes. A mãe ou o pai diz-lhe: «se dormires a noite toda, amanhã dou-te uma bicicleta». Ela acorda na mesma.


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